A respeito de possível homenagem da Federação Goiana de Municípios a ruralista acusado de envolvimento no assassinato de liderança camponesa em Carmo do Rio Verde – pela memória de Nativo da Natividade.

“E Deus disse: Que fizeste?
A voz do sangue de teu irmão
clama da terra a mim”
Gn 4,10
O Campo Unitário – Goiás, que reúne movimentos sociais e sindicais do campo no estado, manifesta seu repúdio à decisão da Federação Goiana de Municípios (FGM) de homenagear o prefeito de Carmo do Rio Verde, Geraldo dos Reis Oliveira, com o Prêmio Prefeito Amigo da Agricultura Familiar – Edição 2026, durante a Agro Centro-Oeste Familiar, realizada na Universidade Federal de Goiás.
A homenagem agride a memória de Nativo da Natividade de Oliveira, líder sindical camponês assassinado em 23 de outubro de 1985 em razão de sua atuação em defesa dos trabalhadores rurais da região. Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Carmo do Rio Verde, integrante das Comunidades Eclesiais de Base, da CUT e militante do Partido dos Trabalhadores, Nativo tornou-se um dos principais símbolos da luta pela terra e da resistência à violência no campo em Goiás.
No curso das investigações sobre o crime, Geraldo dos Reis Oliveira foi denunciado pelo Ministério Público como um dos mandantes do assassinato. Em 1996, foi condenado pelo Tribunal do Júri de Goiânia. Posteriormente, o julgamento foi anulado e determinada a realização de um novo júri popular, que nunca ocorreu. Em 2011, a ação penal foi declarada prescrita.
Reconhecer e valorizar gestores públicos comprometidos com o fortalecimento da agricultura familiar é legítimo e necessário. No entanto, homenagens públicas exigem responsabilidade histórica e critérios éticos compatíveis com a relevância do reconhecimento concedido. Não é aceitável que uma premiação destinada a celebrar quem fortalece a agricultura familiar desconsidere o peso simbólico de um caso que marcou profundamente a história dos conflitos agrários em Goiás.
Ao longo de quatro décadas, movimentos populares, pastorais sociais, entidades sindicais e organizações de direitos humanos têm mantido viva a memória de Nativo e de tantos outros mártires da luta pela terra, reafirmando que a impunidade e o esquecimento não podem prevalecer sobre a verdade histórica. Transformar em homenageado alguém cujo nome esteve associado, por décadas, a esse emblemático caso de violência representa um desrespeito à memória popular e às lutas por justiça no campo.
Diante disso, conclamamos a Federação Goiana de Municípios a revogar esta homenagem, em respeito à trajetória de Nativo da Natividade, às famílias camponesas e ao compromisso que as instituições públicas devem ter com os direitos humanos, a memória e a justiça.
Campo Unitário – Goiás
Goiânia, 11 de junho de 2026