Notícias

Formação incentiva organização de bancos de semente comunitários em assentamentos, acampamentos e comunidade tradicionais

Atividades estão circulando pelas comunidades acompanhadas pela CPT Goiás, como mais uma etapa das atividades com práticas agroecológicas

Não faz muito tempo, selecionar e guardar sementes era uma prática corriqueira e fundamental para os sistemas produtivos da agricultura familiar. As Rodas de Conversa “Sementes da Esperança”, que a CPT Goiás está realizando nas comunidades que acompanha, trazem à tona memórias deste tempo, ainda vivas nos agricultores mais experientes, em um momento de partilha, troca de experiências e reflexão coletiva.

Na tradição dos povos camponeses, quilombolas e indígenas do cerrado, após cada colheita, as sementes mais sadias e vistosas eram separadas e preparadas para esperar o retorno das chuvas. Nas comunidades agricultoras, todo mundo tem uma história pra contar destes tempos, seja sobre as variedades de alimentos quase esquecidas, difíceis de encontrar hoje em dia, sobre como as sementes eram armazenadas, evitando pragas, os saberes do plantio, os cantos de trabalho para os dias de mutirão.

Algumas famílias nunca perderam esses costumes, mas são a exceção e o volume e a variedade de sementes guardadas é muito pequeno diante do que se praticava antigamente. Pouquíssimas guardam sementes no paiol, por exemplo, o que era uma prática extremamente comum.

Com o passar dos anos e o desenvolvimento de novas tecnologias para produção agrícola, guardar sementes crioulas se tornou algo obsoleto. Com a propaganda de alta produtividade, controle de pragas eficaz de pragas e redução do trabalho braçal, a indústria se vendeu como solução para os problemas vividos no campo.  

Mas, quando foi que as comunidades deixaram de ter suas sementes e passaram a comprá-las a cada plantio? Talvez para muitas famílias, este momento é um pouco impreciso, mas para outras há divisores de água. “Nós perdemos as nossas sementes quando perdemos a terra”, disse um agricultor do Acampamento Oziel Alves, de Catalão (recuperar esta fala – porque eles perderam a terra?)

Uma experiência vivida no Assentamento Oziel Alves, em Baliza, deixa explícita a relação entre guarda de sementes, autonomia e segurança alimentar. Há sete anos, a Lavoura Comunitária Frutos do Oziel se mantém ativa e vem estimulando outras iniciativas semelhantes no assentamento. Dona Neide, coordenadora da lavoura, é uma das referências nesse processo. Todos os anos, é ela que reserva parte de sua produção para garantir o plantio seguinte e também contribui com outras famílias.

Entretando, a importância de que esta preocupação seja compartilhada por todo o coletivo se tornou mais evidente após uma perda recente. “Nós tivemos que comprar sementes nos últimos dois anos epois de perder a lavoura de arroz por causa da estiagem e do calor prolongado. Não adianta só uma família guardar. Se outras pessoas tivessem guardado, talvez ainda teríamos nossas sementes. O banco de sementes vai ser muito importante pra isso”, relata.

Porque recuperar as sementes crioulas?


As contradições deste modo de produção industrial no campo se tornam cada vez mais evidentes. Hoje, reproduzir e guardar sementes tradicionais é um ato de resistência econômica e ambiental, diante de um sistema produtivo que foi organizado em torno do lucro de gigantes produtoras de sementes transgênicas, fertilizantes químicos e agrotóxicos.  

As conversa, em roda, têm revelado a insatisfação das famílias agricultoras com o sistema de necessidades imposto por estas empresas. A produtividade das sementes já não é mesma, a resistência às pragas está comprometida, o preço das sementes está altíssimo, os gastos com aplicação de adubos e venenos é enorme, a poluição da terra e das águas é notória.

Atualmente, as sementes vendidas no mercado como de alta produtividade são contadas em unidades e um pacote de 20 quilos pode passar de 1500 reais, apontam os participantes das atividades, destacando o impacto econômico e produtivo desse modelo.

A prática da lavoura comunitária têm possibilitado que as famílias experimentem este modelo, que conheceram em sua infância ou juventude, desmistificando a ideia de que as sementes naturais não produzem. Assim, ao experimentar essa produção, com variedades naturais e livre de agrotóxicos, encontra-se o prazer do alimento verdadeiramente natural e da produção agroecológica desde a semente.

“Eu recebi sementes de milho crioulo esse ano, mas eu confesso que estava com receio de plantar. Plantei, mas plantei com medo. E foi pra pagar minha língua, porque as lagartas comeram só o milho transgênico, não perdi uma espiga do crioulo”, narrou Juliane Moreira, agricultora do Assentamento Oziel Alves.

Juliane é técnica em zootecnia e participa do grupo da Lavoura Comunitária Frutos do Oziel e conta que, onde estudou, em Rio Verde, capital do agronegócio goiano, foi formada para trabalhar apenas com transgênicios e veneno. Junto com outros técnicos e agricultores que organizam a lavoura, participa de vários experimentos com diferentes sementes e bioinsumos.

 “Aqui na Lavoura comunitária a gente está aprendendo que é possível fazer agroecologia. A gente planta feijão sem veneno. Outro dia encontrei um produtor, falei do nosso trabalho, e ele me disse que se a gente não fizer pelo menos 8 aplicações de veneno no feijão a gente não vai colher nada. Eles não acreditam” narrou Juliane.

Práticas coletivas reavivam a memória camponesa ancestral

A primeira confraternização do grupo da lavoura comunitária do Assentamento Dom Roriz, em Minaçu, foi uma pamonhada do milho cunha, variedade crioula preservada pelo casal Valdemi e Ana Paula e utilizada pela primeira vez no plantio coletivo realizado anualmente na região. “O sabor é outro! É muito mais saboroso, esse milho”, disse uma agricultora, que degustou pela primeira vez uma pamonha feita com milho agroecológico (conferir a fonte).


As atividades já aconteceram em diferentes regiões do estado, como no Assentamento Dom Roriz e na comunidade do Filó, em Minaçu; no Assentamento Padre Ilgo, em Caiapônia; no Assentamento Dom Fernando, em Itaberaí; e no Acampamento Oziel Alves, em Catalão. Também houve uma roda de conversa no acampamento Leonir Orback, em Santa Helena de Goiás, reunindo famílias em torno da discussão sobre agroecologia e sementes tradicionais.


Vamos organizar bancos de sementes comunitários?

Organizadas em formato participativo, as rodas de conversa têm promovido momentos de partilha de saberes, memória e reflexão. Os encontros são a primeira etapa de uma proposta mais ampla, a ser organizar a parte da experiência, dos desejos e condições de cada comunidade. Iniciar um banco de semente, nesta proposta, é parte do processo de transição agroecológica que já está em curso nas lavouras comunitárias, hortas coletivas, viveiros, quintais agroecológicos e atividades de recuperação de nascentes acompanhados e apoiados pela CPT Goiás.  

Em Minaçu, por exemplo, os encontros envolveram grupos das lavouras comunitárias e incluíram visitas a áreas de cultivo, como a roça de milho crioulo no Assentamento Dom Roriz e a plantação de arroz na comunidade do Filó.

No Assentamento Oziel Alves, no município de Baliza, a roda de conversa reuniu também famílias do Acampamento Chê Guevara, de Piranhas, e evidenciou o potencial da organização coletiva. A partir do diálogo, os participantes passaram a projetar a criação de um banco de sementes capaz de atender às demandas locais.

Após o ciclo de rodas de conversa, a CPT Goiás pretende realizar oficinas práticas nas comunidades, voltadas ao compartilhamento de técnicas de guarda e conservação de sementes. As atividades serão organizadas a partir das definições de cada localidade, respeitando as realidades e os saberes já existentes.

A iniciativa aponta para o fortalecimento da autonomia camponesa, da agroecologia e da soberania alimentar, ao mesmo tempo em que valoriza os conhecimentos tradicionais e a organização coletiva como caminhos de resistência no campo.

Compartilhe essa notícia