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Caderno Conflitos no Campo 2025 revela persistência da violência, avanço da criminalização e resistência dos povos do campo em Goiás

Publicação lançada pela CPT Goiás analisa dados registrados pelo Centro de Documentação Dom Tomás Balduino – CPT no último ano.

A Comissão Pastoral da Terra Regional Goiás (CPT Goiás) lançou, no dia 16 de junho, o caderno Conflitos no Campo 2025 – Análise dos dados registrados em Goiás, publicação que reúne dados, análises e reflexões sobre a realidade vivida pelos povos do campo, das águas e das florestas no estado. Elaborado a partir dos registros sistematizados pelo Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno (CEDOC/CPT), o caderno evidencia o agravamento de violações de direitos, mas também a permanência das estratégias de resistência e organização popular. A cerimônia de lançamento foi realizada como parte da programação do Seminário Popular realizado pela pastoral em parceria com a Pontifícia Universidade Católica Goiás (PUC Goiás), na Escola de Formação de Professores e Humanidades da instituição.

Violência e criminalização da luta pela terra persiste no estado

Goiás ocupou, em 2025, o 3º lugar entre os estados brasileiros com maior número de trabalhadores resgatados do trabalho escravo no meio rural. Foram 220 trabalhadores libertados em nove ocorrências, com incidência em diversos setores do agronegócio, como cana-de-açúcar, a produção de etanol, a pecuária, a produção de sementes comerciais e o corte de madeira. A análise do eixo Trabalho, assinada por Francisco Alan Santos Lima, demonstra que a escravidão contemporânea permanece integrada às dinâmicas do desenvolvimento capitalista no Cerrado e não pode ser compreendida como resquício do passado.

No texto de análise de conjuntura, a advogada popular e assessora jurídica Lara Estevão Lourenço relaciona a realidade dos conflitos em Goiás ao cenário internacional marcado pela crise capitalista, pelas disputas geopolíticas e pela corrida global por recursos estratégicos. A autora destaca que os oito anos de governo Ronaldo Caiado coincidiram com o crescimento dos conflitos no campo no estado e analisa o aprofundamento da criminalização das lutas sociais, o fortalecimento de medidas repressivas e o avanço da mineração de terras raras em Goiás. O texto chama atenção para os riscos que a expansão minerária representa para comunidades tradicionais e assentamentos, especialmente diante da flexibilização ambiental e da ausência de mecanismos adequados de consulta às populações atingidas.

No eixo Terra, Valéria Pereira Santos demonstra que a concentração fundiária continua sendo elemento estruturante da questão agrária goiana. Em 2025, a CPT registrou 40 ocorrências de conflitos por terra em 19 municípios, envolvendo 2.973 famílias. A pesquisadora ressalta que 95% das ocorrências corresponderam a violências contra a ocupação e a posse da terra, enquanto apenas 5% estiveram relacionadas a ações de luta protagonizadas por movimentos sociais. Os trabalhadores sem terra permaneceram como o grupo mais atingido, seguidos pelas comunidades quilombolas, que apresentaram aumento expressivo nos registros em comparação ao ano anterior.

A análise sobre os conflitos pela água, elaborada pela professora e pesquisadora Gislene Auxiliadora Ferreira, revela que a disputa pelos recursos hídricos segue atingindo justamente as populações mais vulnerabilizadas. Foram registrados sete conflitos em quatro municípios goianos, afetando 1.119 famílias. Os casos envolvem contaminação por agrotóxicos, poluição associada à mineração, restrição de acesso à água e não reassentamento de populações atingidas por barragens. A autora alerta para a tendência de agravamento desses conflitos em razão das mudanças climáticas e da expansão de atividades econômicas altamente dependentes da exploração intensiva dos recursos naturais.

No eixo Violência contra a Pessoa, o promotor público Márcio Lopes Toledo propõe uma reflexão sobre os limites das respostas institucionais diante dos conflitos agrários. A partir de referenciais teóricos do reconhecimento e da legitimidade democrática, o autor analisa os registros de ameaças de morte ocorridos em 2025 e argumenta que a superação da violência no campo exige a adoção de mecanismos efetivos de mediação, diálogo e garantia de direitos. O texto aponta para a necessidade de fortalecimento das práticas autocompositivas e da atuação articulada do sistema de justiça nos conflitos fundiários coletivos.

O caderno também destaca que, mesmo diante da repressão, da morosidade das políticas públicas e da intensificação dos conflitos, a mobilização popular permanece viva. Em 2025, a CPT registrou 13 manifestações de luta em Goiás, envolvendo pelo menos 1.820 participantes. Ocupações do Incra, atos contra o chamado “PL da Devastação”, mobilizações em defesa da reforma agrária, festas camponesas e feiras estaduais revelam que os povos do campo seguem articulando a defesa da terra, da água, do Cerrado e de seus modos de vida.

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